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Cultura para pensar e julgar, por Rubens Shirassu

*Rubens Shirassu Júnior

Em 30/04/2018 às 09:29

Arte desvela ou expõe o que há de inumano e frágil em nossa humanidade que está sujeita às variações e demandas do tempo histórico

(Foto: Ilustração/Rubens Shirassu)

A arte desvela ou expõe o que há de inumano e frágil em nossa humanidade que está sujeita às variações e demandas do tempo histórico. Os artistas em geral têm que advogar uma cultura e uma educação para a amplitude da experiência com o mundo e com os outros.

E uma forte preocupação não só com a ideia de cuidado e responsabilidade para os que vivenciam na atualidade, mas com os que irão nascer, mas a defesa incondicional de que é a pluralidade que define a nossa condição de seres de ação política. E neste espaço da pluralidade que nos constituímos enquanto seres da palavra e de ação.

Dentro deste ambiente que podemos nos reinventar, produzir e preservar o mundo. Assim, sem dúvida, o espaço constitutivo da experiência da diferença, tão fundamental ao convívio humano. Embora uma pequena parte da classe artística manifeste essa consciência acerca do importante papel que a cultura e a educação podem desempenhar na construção da autonomia e liberdade dos indivíduos, ela sabe também o quanto a linguagem do pensamento reflexivo encontra-se separada, para não dizer suplantada, pela linguagem formal do pensamento científico.

Temos que refletir e avaliar a cultura, dentro dos pensamentos de Theodore Adorno e Hannah Arendt, como uma possibilidade de resistir às imposições de uma cultura, que se rege pela lógica do mercado, da indústria cultural e da sociedade de massas.

Uma reflexão sobre a educação e a cultura que se contraponha aos processos de padronização do pensamento e da formação de coletivos que leve as pessoas ao exercício da autorreflexão crítica e do pensamento. Uma motivação ao pensar e ao julgar como não confirmação imediata com as ordens exteriores, com as proposições apodíticas preestabelecidas com finalidades coercitivas.

Uma educação para a faculdade de pensar e para a autorreflexão crítica, compromissada com a responsabilidade pelo mundo.

Os ideais de autonomia e liberdade, dois temas caros à nossa atualidade e que podem ser sintetizados nas seguintes perguntas: Hoje, podemos nos pensar, de fato, livres e autônomos? Esses dois ideais foram suplantados pelas determinações tecnológicas-científicas, econômicas e políticas, em nosso presente?

Essas são, claramente, questões que contém um teor ético e político, na medida em que nos interrogam acerca da nossa ação nesse mundo e da nossa responsabilidade por ele. Ao analisar os aspectos da cultura contemporânea que põe uma série de entraves à reflexão ética e, por conseguinte, à ação política.

O uso da reflexão leva a elucidar os entraves da cultura contemporânea que barram a nossa capacidade de pensar e julgar os acontecimentos históricos e políticos, sobretudo, quando não participamos.

A área carece de projetos que se interligam à área de filosofia da educação e suscite alguns questionamentos sobre a relação entre o processo educacional, o esclarecimento e o desenvolvimento das faculdades de julgar e de pensar como aspectos importantes na formação humana e na luta contra a barbárie e a banalidade do mal.

Visto como um paradoxo porque contradiz aquilo que se objetiva como papel da educação. A questão que perpassa o trabalho como um todo é a relação entre os processos formativos, sociedade esclarecida ou do conhecimento e a manifestação de atos bárbaros (ou da maldade) em tão grandes proporções ao longo do século XX e início do século XXI.

Nesse sentido, a sociedade moderna se apresenta muito mais como gestora da cultura da dominação que de uma cultura que tenha se identificado com os ideais de emancipação. Nesse contexto, a preocupação será pensar formas de resistência que passam, na nossa leitura, pela autocrítica e autorreflexão adornianas e pela capacidade de pensar e julgar, no sentido arendtiano.

A modernidade e o progresso do Brasil só serão alcançados quando as carências da área social forem minimizadas e isso só se atingirá com o envolvimento das secretarias de desenvolvimento econômico, de assistência social, de cultura e, acima de tudo, com o apoio imprescindível da comunidade em geral, dos representantes do povo, das Ongs, clubes de serviço e o empresariado local, aproveitando os novos conceitos e práticas de gestão, convenientemente adaptados.

Nesse contexto de recessão econômica mundial, urge a elaboração de projetos de cultura criativos e práticos, direcionados e realizados nas periferias, apesar da visível desigualdade social, da barbárie da violência gratuita e do vazio do consumismo desenfreado.

A motivação central para o trabalho de consciência da cidadania através da cultura é o fato de, na sociedade moderna, se conjugar o progresso tecnológico, bem-estar e ameaça à vida. Os ganhos, em termos de conforto e facilidade de vida que o progresso tecnológico proporciona, contrastam grotescamente com os riscos aos quais esse mesmo progresso expõe a vida e o mundo.

Duarte, na introdução de Vidas em Risco afirma: “Na modernidade a vida mesma viu-se capturada no interior de uma espiral de consequências incontroláveis e imprevisíveis (André Duarte, Crítica do Presente em Heidegger, Arendt e Foucault, Forense Universitária, Rio de Janeiro, 2010, p.3). A época moderna parece valorizar mais a técnica e a ciência do que a vida humana. A vida humana passa a ter o seu valor associado à sua utilidade.

Quando se produz obra concreta e pública se torna mais fácil a população ver e acreditar que aquela gestão do prefeito canaliza a arrecadação de impostos para a melhoria de ruas, avenidas, de calçamento, de sinalização, entre outras ações concretas. Quanto à cultura, por não ser visível ou palpável, consequentemente, grande parte do povo não vê as transformações no pensamento e no comportamento, além do que, os resultados do plano cultural são mais morosos.

Dentro deste raciocínio, a reflexão de Levi-Strauss, no livro Raça e História, torna-se oportuna: “Todas às vezes que somos levados a qualificar uma cultura humana de inerte ou de estacionária devemos nos perguntar se esse imobilismo aparente não resulta da nossa ignorância sobre os seus verdadeiros interesses, conscientes ou inconscientes, e se tendo critérios diferentes dos nossos, essa cultura não é, em relação a nós, vítima da mesma ilusão.”

*Rubens Shirassu Júnior é escritor e pedagogo em Presidente Prudente

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