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Torvelinho no encontro

Rubens Shirassu Jr.(*)

Em 08/08/2011 às 11:38

(Foto: )

O muro do colégio, esfolado até perder a tinta: lixa grossa de areia e cimento. O sol acentua os sulcos, remexendo na memória. Nomes, um coração dentro do outro, bombas redondas com pavio, paz e amor, davam lugar agora a letras por cima de letras, código de uma nova linguagem, um grupo, uma nova tribo urbana e, em letras de caixa alta e vermelhas: “fuck you”!

O homem está no pátio, de cabelos curtos e grisalhos diante do muro. O sol ardente de começo de inverno fervilha as letras e volta; enlaça: o homem rodopia e se enxerga imberbe nos muros. O homem caminha, como marionete entregue ao vento que vasculha o pátio, as salas, corredores. Ele invade as frestas na misteriosa pirâmide do Egito, como os exploradores de Tereza Adélia dos Santos, a conhecida “Dona Tatá”, em História Geral. Aqueles muros da Escola de Primeiro Grau Professor Hugo Miele, na rua Fagundes Varela, Vila Dubus, eram limpos, de um azul com tons de cinza grafite.

A sala de educação artística já não cheira madeira molhada, o homem olha pela vidraça do auditório. Onde irá modelar uma portachave, de madeira compensada, utilizando a serra de gesso, seu acabamento sendo feito com verniz. Uma tarefa de educação artística, ministrada por Lídio Dalefi, sócio também de uma famosa camisaria, com aquele bom humor, descontração e um papo bem astral. As mesas, os armários, as paredes rabiscadas como entalhes em alto relevo. Os nomes sedimentados. O homem lembra da imagem de uma loirinha que sentava na primeira fileira; mas, o nome não recorda.

Continua pelo pátio e os muros perguntam mudos: Voltou? O silêncio sem risadas, o pátio sem filas, a cantina com gente nova e reformada, outra paisagem, a baforada quente. O coral não está ensaiando, é o mormaço. Muitos jovens conversando na quadra, essas pancadas de bola no chão são as goiabas caindo no ar, debaixo do pátio escondem as mandiocas. Ninguém nas salas, esses passos são do mormaço. E é a baforada batendo portas.

O homem anda com as mãos nos bolsos, como se pudesse pendurar em si mesmo: até que, de repente, está correndo na quadra, está saltando  para a cesta, ouvindo os xingamentos do professor Tom: - Não perca o rebote, Naná! Era o apelido do Paulo Lima, porque usava franja nos olhos, aparelho corretivo nos dentes, magrelo e alto. Da seleção de basquete da escola, lembro-me apenas de Bira, Faustino, Vitale, Cafarena, Denis, João Pedro, Roberto “Magriça” e outros que não recordo os nomes, como um rapaz de pele branca, educado e centrado, que tive oportunidade de rever em 1992, como engenheiro civil.

Arremessa a bola, aplaudem, ele volta correndo para a defesa, procura um rosto na assistência. As imagens correm do Antonio Sérgio Merízio, o Júnior da família Branco, Zé Roberto “Franguinha”, Gabriel, os irmãos Sérgio e Afrânio Faria de Barros, o Tarcísio e Valter Rogério de Almeida, que formavam um grupo de samba e, às vezes, animavam algumas festas na escola. Todos eram incentivados por Humberto Marinelli Sobrinho, que ensinava Educação Musical, que compôs o hino da escola Professor Hugo Miele, numa apresentação no dia da inauguração da mesma. Para nós, um desafio constante, após formar um grupo de colegas de classe, em sequência, criamos uma paródia da famosa personagem da velhinha surda, do programa “Praça da Alegria”, do Manoel de Nóbrega. Como era hipertímido, organizei e selecionei a trilha sonora do quadro humorístico, atualmente chamado de “stand up.” Ganhamos a nota 100, a máxima, em todos os requisitos. Um momento de intensa alegria, perplexidade, pois realizamos com muita energia, vontade e improvisação.

Porém, está plantado no meio do silêncio, o vapor e o sol no rosto confundem papéis soltos na arquibancada. Poderia situar-me calculando pela posição do sol, se estou ao norte, sul, leste ou oeste, conforme a aula de geografia do Yoshio. O lápis e a régua correm em direção ao ponto imaginário, ao centro da cena, traço duas retas até os extremos direito e esquerdo da folha. Mantive a mesma distância de um risco para o outro, que parece um triângulo, olhando-se da parte superior da folha e, simetricamente, desenha-se uma estrada de ferro em perspectiva.

Surgem as faces de Matiko Funada, ensinando como achar um ponto e traçar uma reta perpendicular usando o compasso e régua milimetrada... Descobríamos a geometria e o desenho preciso com medidas exatas, um conhecimento do mestre José Botosso, com a paciência e a serenidade de monge tibetano. Uma referência da pintura retratista e autor dos afrescos nas paredes da capela de São Sebastião. Um torvelinho de imagens, semelhantes às brumas, modelam croquis de Desirée, Rita, Bárbara, sim, eram monumentos de beleza e elegância, elas pertenciam ao círculo de amizades de Reinaldo Lourenço, que usava as roupas criadas, como forma de merchandising. Despertava também a curiosidade de outras garotas que pertenciam as duas classes da oitava série, de manhã.

No entanto, o homem respira e sente que o tempo mudou o colégio. Abre os braços e respira fundo, mas há inspetores de alunos vigiando, enfia desajeitado a mão no bolso. Silêncio. Só ouve mesmo a própria pulsação repercutindo no ouvido. Bate palmas, como a Dona Olga, ou o Zé Rigolin, inspetores de alunos, pra quebrar o silêncio; depois sente-se imbecil.

Entra na classe, devagar, como se fosse a primeira vez: vai até o janelão sem cortina. Dirige-se até a mesa no centro da sala, abre a gaveta e está lá o giz, como um charuto, enfiado na dentadura do esqueleto, que o professor Firmino Leão trazia para a aula de Ciências, depois, na 7ª. série mudou para Biologia e, tivemos a fascinação da descoberta dos sistemas do Corpo Humano, nas aulas de anatomia do professor Oswaldo, que colecionava selos e administrava um posto de gasolina, se não me engano, na Avenida Manoel Goulart, esquina com a Siqueira Campos. Frente a frente com o esqueleto, o homem fica um minuto revendo faces, ouvindo vozes, “to be or not to be”, de Shakespeare, no inglês sonoro de Oxford do professor Hirata, isso mesmo, um descendente de japoneses que dava aulas de inglês, curioso! Até que tira o giz da boca do outro e fecha o armário.

Com o giz na mão, diante da lousa, não acha o que escrever. Podia ser um palavrão, mas não tem mais graça. Ou podia escrever que ninguém precisa saber mais raiz quadrada ou raiz cúbica, isso a vida deixou mais que provado, respostas fora da ciência da Matemática da professora Jorgina Rodrigues. Então, o homem afasta um passo para olhar a lousa vazia. Sai da sala, percorre devagar o corredor. No fim, diante da porta, para e se volta lento, como num filme, num teatro. Lá, no outro extremo do corredor, está o garoto adolescente. O menino puxa o seu toco de cigarro e tosse com olhos vermelhos. Passa a bituca ao companheiro do lado: estão numa roda fumando o cigarro. Escondido da Dona Olga e seu Zé Rigolin pois, se flagrados, era bronca com advertência do primeiro diretor, o sério e enérgico João Camarini!

Queriam provar para o mundo que estão se tornando “Homens”. A bituca roda até voltar ao menino, pura brasa, mas ele tenta uma última tragada e queima os lábios. Aí, o homem vem andando, o menino ao seu encontro enquanto os outros se esfumaçam. Um ao encontro do outro, até que se fundem no ar... “Roda mundo roda gigante roda moinho roda pião/ o tempo rodou num instante em volta do meu coração.” A letra de Chico Buarque busca na memória um livro adotado pela professora Aparecida, de Língua Portuguesa. Um livro didático fartamente recheado de textos criativos e marcantes da propaganda, crônicas e letras da boa música brasileira. Desculpa-me, por esquecer o seu sobrenome, mas obrigado de coração, minha querida professora, por ensinar-me o ABC da literatura!

(*) Rubens Shirassu Jr. é designer gráfico e escritor

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